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Retrato de Lordelo

Maio 22nd, 2003

Fazer uma visita a alguns locais naturais da nossa freguesia resulta numa verdadeira revolta. Revolta pelo estado actual de locais votados completamente ao abandono, ao desleixo e à agressão ambiental por parte de particulares e, pior do que isso, por entidades públicas.
O rio Ferreira constitui o pior exemplo no que diz respeito ao ambiente, seja, no aspecto biológico (qualidade das águas, flora e fauna), ou no aspecto paisagístico (introdução de elementos estranhos ao ambiente natural ribeirinho). Este nosso rio que em tempos foi local de convívio, de fruição da qual os lordelenses guardam tão boas memórias, tendo sido há alguns anos um rio truteiro, continua a ser alvo de verdadeiros crimes ambientais. Crimes onde podemos discernir dois aspectos: o químico ou biológico e o estético ou paisagístico.
Químico ou biológico porque são frequentemente lançadas descargas poluentes pela ETAR de Arreigada (sobretudo durante a noite), por fábricas, pelas piscinas de Lordelo (lançamento de cloro por debaixo da ponte da Igreja), pelas fossas de instituições públicas e por particulares.
Estético ou paisagístico, porque no rio foram colados tubos de grande dimensão que vêm da ETAR de Arreigada. Um deles termina imediatamente a jusante da Levada do Souto onde é feita captação de águas para consumo constituindo, actualmente, a principal causa de poluição do nosso rio. De facto, neste local, perto da ponte do Pardal, são lançadas grandes quantidades de poluentes, provenientes do saneamento básico que não é tratado pela ETAR de Arreigada. A colocação desses tubos não teve em conta a preservação das espécies, levando algumas delas a deslocarem-se para outros sítios, provocando graves desequilíbrios no ecossistema, fazendo diminuir ou quase desaparecer o cágado, o pica-peixe, a galinha d’água e algumas espécies de peixe (truta, boga, etc.). A empresa responsável pela colocação destes tubos hediondos não teve qualquer consideração pelo ambiente, chegando a fazer rebentamentos de rochas dos rios e até a utilizar cimento e outros materiais nocivos para fixar os famigerados tubos nas estruturas naturais do rio (rochas, margens, árvores ribeirinhas). As quedas da Ribeira constituem um exemplo desta prática repugnante.
Pior de tudo: as entidades autárquicas parecem ter sido as promotoras, ou pelo menos, coniventes com este tipo de práticas. Torna-se imperioso esclarecer a todos os lordelenses que acordo existe ou existiu entre a Câmara de Paços de Ferreira e a Câmara de Paredes ou a Junta de Freguesia de Lordelo para que esses tubos fossem colocados no rio à revelia da população da nossa terra. Explicar o que a Câmara e a Junta pretendem fazer para resolver este grave problema, até porque não parece que possa existir um autêntico Parque do Rio Ferreira com as águas poluídas. Elucidar e justificar as alterações ao Plano Director Municipal (PDM) que vão permitir construções, algumas muito próximas do rio e de zonas verdes, até a um índice de 1,9%.
Infelizmente não podemos esperar muito de uma Junta de Freguesia que promove uma corrida de motos, no âmbito das Jornadas Culturais, sem se preocupar se o local escolhido pudesse sofrer danos ambientais (desnível da margem, trepidação do terreno, e consequentemente desequilíbrios no ecossistema), ou que não limpa o lixo do Jardim, que fica acumulado durante vários dias, depois de qualquer evento. Muito menos de um vereador que diz ser de Lordelo e que é preciso passar “de uma cultura de aldeia para uma cultura de cidade”. Se a “cultura de cidade” inclui a consciência ecológica parece-nos que o Dr. Celso tem que seguir as suas próprias palavras proferidas no último “Lordelo Agradece”. De facto, pouca ou nada tem feito no que diz respeito à preservação do ambiente natural da nossa terra. Não me refiro só ao problema do rio, mas também, por exemplo, aos lixos de toda a espécie depositados entre a Zona Industrial e Parteira, a algumas centenas de metros do eco centro. Pois, bastaria lembrar à Polícia Municipal que Lordelo também faz parte de Paredes e que era importante alguma vigilância e acção sobre os prevaricadores, sobretudo à sexta-feira ao fim da tarde e sábado naquela zona. A sua presença teria, pelo menos, um efeito dissuasor.
Seria proveitoso utilizar o boletim informativo da Junta para, acerca destes problemas, informar e esclarecer a população lordelense, em vez de servir de instrumento para fazer guerra com quem não gostam, ou para escrever artigos ridículos que propõem novas cidades e outras aberrações do género.
Tudo faremos para descobrir o que nos escondem. Neste sentido, fizemos uma denúncia ao SOS-Ambiente, organismo sob a tutela do Ministério do Ambiente, dos crimes ambientais existentes na nossa freguesia, que resultou, há pouco tempo, numa visita da fiscalização da Câmara para se inteirar dos locais onde esses crimes são cometidos, e também numa visita de representantes da Câmara e Junta, acompanhados da estação televisiva TVI. É sinal que a nossa denúncia não caiu em saco roto. Importa agora que sejam tomadas medidas concretas.
Estaremos atentos ao desenrolar deste processo de denúncia, e exigiremos tomada de medidas para acabar com as atrocidades ambientais. Estaremos sempre disponíveis para contribuir para a melhoria do ambiente natural da nossa terra, seja para constituir uma Associação Ambiental, pela disponibilização do nosso boletim para escrever sobre as questões ambientais, ou por outra forma qualquer. Pois, estamos convictos que viver humanamente só é possível respeitando a Natureza.